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Falar de Camilo, será sempre um «Amor de Perdição»

Falar de Camilo, será sempre um «Amor de Perdição»

O drama e a trama, o amor e a perdição. A novela. O romance. O teatro. Ana Plácido, Simão Botelho, ou Calisto Elói de Barbuda. Os filhos. A cadeia da relação e de tanta ralação. O seu mundo e o mundo dos outros.

E o monóculo, o bigode, a caneta e o revólver. E o leitor, sempre o leitor.

Camilo escreveu sobre tudo, sobre todos, e sobretudo sobre as paixões da alma, como só ele o poderia fazer. Alguns, atónitos com o despudor, ousaram subestimá-lo. Em vão, com se veria. Outros, intuindo-lhe o génio, curvaram-se-lhe à mestria. Fê-lo Pascoaes em “O Penitente”, Aquilino em “O Romance de Camilo, Agustina em “Génio e Figura”, ”Alexandre Cabral, Prado Coelho, Alberto Pimentel, Viale Moutinho, alguns mais...

Mas Camilo é inimitável, como Eça inigualável, ou Aquilino irrepetível.

É por isso que hoje, quando passa mais um ano sobre o seu nascimento, todos nós, os que o admiramos, os que temos dele um livro sempre à mão, os que por muito que escrevinhemos seremos sempre eternos aprendizes, é por isso que hoje, dizia, poderemos, ao acaso, tropeçar no seu João da Lage, das “Novelas do Minho” :  

“... este homem tinha em si algumas faíscas de Diógenes, um tudo-nada do espírito de Epicuro, e o mais era espírito de vinho. Viveu assim largos anos, reformando-se sempre para pior, e morreu aos 80, como lá dizem, coberto de musgo, que era o sarro interior que lhe porejava na casca. Com alguma sentimentalidade no coração e frugalidade no estômago, morreria na flor dos anos...”.

Camilo não chegou aos 80. Alguns anos antes, percebendo que não poderia continuar mais a fazer o que gostava, trocou a caneta pelo revólver. E partiu...

Mas falar dele e, sobretudo, poder folhear todos os dias, qualquer página dos seus livros, continuará a ser, um verdadeiro “amor de perdição”.

 

*(Adelino Correia Pires | alfarrabista)

 16 março 2017

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